7 da manhã

Andando. Estou andando pelas ruas da cidade. Vestido com meu all star azul, minhas velhas calças e minha camiseta nova passeando pelo centro à procura de uma razão para continuar. A trilha sonora que me acompanha é o próprio som da cidade, que ao redor acorda e se correndo se prepara para outro dia no centro da velha cidade.

O relógio ainda marca 7 horas da manhã desde que sai de casa, com certeza está parado. Mas por outro lado parece que o relógio do mundo também está parado, ninguém parece perceber ou estão acostumados, mas o mundo também está parado. Com várias horas caminhando, o sol continua no mesmo lugar o tempo passa lentamente.

Nunca disse que estava andando sem rumo: chego ao meu destino. Agora tudo que preciso fazer depois de caminhar horas e horas é esperar. Esperar pela pessoa que me trouxe aqui.

Mas como alguém pode esperar algo no mundo se o tempo não passa? Se o relógio insiste em manter o relógio marcando 7 horas? Mas eu espero.

A tão esperada pessoa chega, quase 7 meses depois, com aquele velho e belo sorriso. Olho para o relógio: sim, 7 horas. Está ainda dentro do horário.

Dois segundos depois, 8 horas. Algo está errado nesse mundo. Alguém religou o tempo.

Rebirth — Hideto Frantanor

Ainda entorpecido pelos sonhos cheios de cores e luzes, acordei e calculei o horário aproximado baseando-me basicamente na escuridão que a noite ainda parecia ter, pois não conseguia ver o mostrador do relógio no criado-mudo. Devia ser plena madrugada ainda, não se notava nem um mínimo rastro de luz, pensei que talvez faltasse a mim abrir os olhos, mas eu já tinha aberto-os e disso eu tinha certeza. Resolvi acender a luz e quem sabe encontrar o relógio-despertador.

Click

Continuei não vendo nada e estranhei, até me lembrar do terrível acidente há dois dias. De dentro do carro eu só podia ver tudo girando depois de desviar daquela moto, até trombarmos com um muro e tudo ficar escuro (para sempre). Agora, entendo porque não via o relógio, ele não estava mais lá.

Click

Eu não precisarei mais dessa lâmpada e nem do relógio, o médico que alertou que provavelmente isso seria permanente. Sem saber o que fazer diante dessa nova situação, me pus a chorar. Ainda podia sentir as lágrimas rolando minha face, até terminar salgada nos lábios, mas ninguém poderia me ver assim, eu precisava parecer forte, forte por aqueles que não tiveram a sorte de terem perdido só parte de suas vidas.

Me levantei finalmente e percorri o caminho até o banheiro pensando. Pensando que ali, eu conhecia cada contorno, esquina, obstáculo, mas como seria fora de minha própria casa? No banheiro, lavei o rosto e saí. Precisava andar um pouco, esfriar a cabeça. Me via criança, onde o mundo era diferente e meus sentidos trazia ao meu cérebro todas as mais novas sensações.

Resolvi andar pela cidade, deixar de me limitar aos meus ladrilhos.

Com ajuda de alguém que poderia ser um parente, andei por todos os cantos que eu já conhecia, mas acabei redescobrindo-os. A vida era bem diferente agora, cada lugar conhecido era desconhecido, descobri que eu mudara muito, que jamais seria a mesma pessoa. Eu não diria que nasci de novo, se estive tão perto da morte, mas que tudo era como se isso realmente acontecido, isso eu diria.

Mas depois de algum tempo convivendo com isso, senti aquele cheiro. Inconfundível. Aquele cheiro que eu jamais esqueceria, que veio pouco antes daquela voz e daqueles toques que juntos formariam aquela pessoal inesquecível. Aquela era a pessoa certa, que eu passaria o resto de minha vida observando o sorriso.

Ao lado, aprendi a viver a minha mais nova vida. Descobri o lado bom, que finalmente dominou o lado mau.

Hideto Frantanor

Rebirth — Corpo

Vi esses dias na calçada um corpo morto, sem vida, um defunto. Acho que é bastante óbvio que várias outras pessoas o viram também, mas nenhuma deu a importância necessária ou pelo menos importância suficiente para ao menos retirá-lo dali. Somente desviaram e continuaram seu próprio caminho atrás de seus próprios objetivos.

Logo lembrei, é claro, de uma obra de  algum bom e grande cronista que algum dia li. Mas não lembro agora o nome do autor nem obra. Ficarei devendo essa para os leitores. Devendo para o resto da eternidade é claro.

Parei por alguns instantes e observei como ele estava morto, com os membro e a barriga para cima, acho que não senti dó, talvez um pouco de nojo. Acho que é porque não o conhecia. Como ninguém agia, resolvi eu mesmo tomar uma decisão e efetuá-la, simplesmente me levantei de novo (pois estava agachado bem próximo do corpo) e chutei aquela barata para a sarjeta, onde ela teria o funeral que merece: levada pela primeria chuva.